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‘Eu me defino, sou meu próprio lar’

Debate sobre ‘empoderamento feminino frente aos impactos das relações abusivas’ reúne estudantes, ativistas e escritoras durante evento no Colégio Estadual Nilo Peçanha em São Gonçalo


Marisa Chaves (ao fundo) falando durante debate, sobre 'relações abusivas', que lotou o auditório do Colégio Nilo Peçanha, em SG


Os impactos das relações abusivas, a reconstrução dos papéis da mulher na sociedade e a ocupação de ‘lugares’ de fala foram algumas das questões abordadas no debate que reuniu estudantes, escritoras e ativistas, na tarde de terça-feira (12), no auditório do Colégio Estadual Nilo Peçanha, na Praça Zé Garoto, em São Gonçalo. A ação, organizada pelo Movimento de Mulheres em São Gonçalo (MMSG), contou com apresentações de dança, vídeos educativos, doação de absorventes, sorteio de perfumes e distribuição de materiais informativos com orientações sobre redes de atendimentos e combate às violências contra as mulheres em suas diversas expressões de gênero.  


Com auditório lotado, o evento foi mediado pela advogada Sandra Fratane e contou com a participação da gestora do MMSG, Marisa Chaves; da psicóloga e integrante do Projeto Vozes Periféricas/CPX do Salgueiro (SG), Patrícia dos Santos Muniz; da assistente social Victória do Livramento; da coordenadora do Grupo Reflexivo para Mulheres, Luciléia de Souza Baptista; além de escritoras da coletânea de histórias do livro ‘Escrevivências Periféricas, minha vida importa sim!’ e representantes discentes e docentes da unidade escolar.


Ao versar sobre o tema ‘empoderamento feminino frente aos impactos das relações abusivas’, Marisa Chaves ressaltou a importância do acesso ao sistema de garantias de direitos. Para a gestora do MMSG, as lutas das mulheres, no passado, possibilitaram avanços na defesa de direitos e na implementação de políticas públicas. De acordo com Chaves, ao ser detectado o abuso ou qualquer outra violência, é imprescindível buscar uma rede especializada de apoio, que forneça acolhimento, escuta qualificada e encaminhamentos técnicos às instituições competentes. 


“Estamos no MMSG, há 35 anos, combatendo às violências contra as mulheres. E devido às lutas, no passado, possibilitamos, hoje, que toda criança ou adolescente possa pedir ajuda e realizar denúncia. Portanto, é possível, sem ter vergonha ou constrangimento, esse público acessar o sistema de garantias de direitos. Todos serão acolhidos, com escuta qualificada e total sigilo. Todas as vezes que nos indignamos, fazemos a diferença. Estamos nessa escola porque acreditamos na educação para construirmos uma sociedade onde meninos e meninas se respeitem”, disse Marisa.

‘A Internet tem sido uma porta de entrada para os abusadores’ 


Ao falar para o público, formado, majoritariamente, por adolescentes, a assistente social Victória do Livramento alertou para os iminentes riscos das relações abusivas, muitas das vezes ‘veladas’, no âmbito das redes sociais. Victória ressaltou a importância de não confundir amor com abuso. Para a assistente social, a despeito dos avanços tecnológicos, a Internet tem sido uma porta de entrada para abusadores, que se aproveitam da tecnologia para enganar e controlar pessoas. 

     

“Temos visto muitos ‘likes’ em ‘stories’ das meninas se transformarem em encontros, que, posteriormente, acabam em relações abusivas. É aquele ‘suposto namorado’ que controla suas redes sociais, te proíbe de sair com suas amigas e usar roupas que você gosta. Ele age como se estivesse protegendo. Não confundam amor com abuso”, ressalta Victória, que, durante o evento, projetou um vídeo educativo para ilustrar uma relação abusiva naturalizada como ‘romance’. “Essas relações abusivas deixam marcas físicas evidentes que produzem ‘feridas’ ocultas”, completou.

‘Precisei de apoio para superar os abusos. Hoje sei da minha potência’


Para Cláudia Elizabeth Gomes (Morgana), uma das escritoras do livro ‘Escrevivências Periféricas, minha vida importa sim!’, o acolhimento e apoio recebido em instituições como o Movimento de Mulheres em São Gonçalo, foram fundamentais para superar a relação abusiva, cercada de violência, que deixou marcas profundas em sua vida. Para a escritora, a mulher não pode jamais naturalizar a humilhação e os maus-tratos.


“Fui humilhada com as violências que sofria. Muitas vezes, não tinha com quem desabafar. Foram anos de uma relação problemática. Tive filhos com essa pessoa. Ele dizia que eu não tinha futuro, me desacreditava. Precisei de apoio para superar os abusos. Hoje sei da minha potência. O acolhimento e apoio que recebi no MMSG foram fundamentais. Consegui me livrar da relação abusiva e posso sonhar. Realizei o sonho de participar de um livro e estou disposta a outros desafios, como participar de um curso de dança. Descobri que tenho potência, que eu posso!”, reitera Morgana.

Idealizadora do tema do evento, a pesquisadora Luciléia Baptista diz ter se inspirado na letra da música ‘Triste, Louca e Má’, da banda brasileira  ‘Francisco, El hombre’, que versa sobre a desconstrução dos papéis da mulher na sociedade e  o rompimento com o patriarcado, sistema social em que homens mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades, mantendo as mulheres em lugar de submissão.


“A letra da música diz que temos que recusar a receita cultural vigente e  romper com as relações patriarcais, que dão poderes aos homens e submetem as mulheres. É uma estrutura de poder. Esse sistema releva as mulheres ao lugar de objeto, estimulando relações abusivas, violências e feminicídios. O corpo não me define, a casa não me define. Nós somos o nosso próprio lar”, acrescenta Luciléia.   

O evento recebeu o aval da diretora do Colégio Estadual Nilo Peçanha, professora Ligia Chagas Batista, que falou sobre o papel fundamental da escola na difusão de conhecimentos e oportunidade de discutir assuntos, antes considerados tabus, como as relações abusivas e o papel social da mulher. “Trazer esse tema sobre mulheres, para dentro da escola, é, didaticamente, importante, pois lidamos com adolescentes que, muitas vezes, são vítimas ou presenciam relações abusivas. Esse conhecimento pode abrir novos horizontes e ampliar a rede de apoio. Elas não podem ficar ‘cegas’ sobre essas temáticas”, acrescentou a diretora.   



Patrícia Muniz (com o microfone) ressaltou a importância da informação para romper com o ciclo de violência e as relações abusivas


‘Meu território me define’


Sobre as definições e o lugar de ‘fala’ da mulher, a psicóloga Patrícia Muniz é enfática: “Homem não me define, corpo não me define. Meu território me define”. 'Cria' do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Muniz é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia  pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde atua em pesquisas sobre ‘Subjetividades Políticas e Exclusão Social’.


Atualmente, por conta dos estudos, Patrícia mora em outra cidade, mas, mantém as raízes, em constantes visitas, após integrar o Projeto Vozes Periféricas do MMSG, que estimula o empoderamento das mulheres do Complexo do Salgueiro através de cursos de empreendedorismo e rodas de conversas sobre saúde, relações abusivas e violências domésticas. Para a psicóloga, a conscientização das mulheres sobre o seu papel social e a ocupação do  ‘lugar’ de fala, sobretudo nas favelas, deve passar por um processo dialógico, que envolve educação e transformação social dos territórios. Segundo Muniz, para a mulher romper com o ciclo de violência é preciso ‘desnaturalizar’ os abusos. Em relação às novas gerações, a psicóloga admite que houve avanços em alguns pontos, mas, aponta que o exacerbado   cuidado com a imagem não deve preceder o cuidado com a consciência.  

          

“Quando digo que o território me define é porque valorizo minhas origens.  Sei das carências, das hostilidades,  mas percebo muitas coisas boas. Nunca imaginei, por exemplo, estudar em uma universidade pública, pois fui ‘informada’ que, como mulher negra, de periferia,  não poderia ocupar alguns lugares na sociedade. Mas, eu posso, sim! Podemos ser quem quisermos. Hoje, busco usar minha experiência acadêmica para empoderar outras mulheres. Esse processo é dialógico. Sempre lembro da minha avó, conversando com as amigas. Era uma linguagem simples, mas que estimulava mudanças através do afeto”, ressalta Muniz. 

Três a cada dez brasileiras já foram vítimas de violência doméstica


De acordo com a 10ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, feita pelo Instituto DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), três a cada dez brasileiras já foram vítimas de violência doméstica.E quanto menor a renda, maior a chance de a mulher sofrer violência doméstica, diz o estudo. Mais de 25,4 milhões de brasileiras já sofreram violência doméstica provocada por homem em algum momento da vida, segundo o DataSenado. Desse total, 22% declararam que algum desses episódios de violência ocorreu nos últimos 12 meses. 


A pesquisa apontou que a violência psicológica é a mais recorrente (89%), seguida pela moral (77%), pela física (76%), pela patrimonial (34%) e pela sexual (25%). As mulheres com menor renda são as que mais sofrem violência física, diz o estudo. Cerca de metade das agredidas (52%) sofreram violência praticada pelo marido ou companheiro, e 15%, pelo ex-marido, ex-namorado ou ex-companheiro. De acordo com o documento, a maior parte das vítimas tem conseguido terminar casamentos abusivos. Também é majoritária a parcela de vítimas que estão saindo de namoros violentos. Os dados foram divulgados pela Procuradoria da Mulher do Senado. (Fonte: Agência Senado)


MMSG atende vítimas de abusos e violências domésticas em três municípios


Marisa Chaves voltou a destacar que o MMSG está implementando o Projeto NEACA Tecendo Redes, iniciado em 2024, com a parceria da Petrobras, que atenderá demandas relativas às violências domésticas e gênero. O projeto abrangerá os municípios de São Gonçalo, Duque de Caxias e Itaboraí e tem como objetivo contribuir para a promoção, prevenção e garantia dos direitos humanos de crianças, adolescentes e jovens.


Em caso de ajuda, o MMSG disponibiliza seus serviços, de segunda à sexta-feira, das 9h às 17hs, nos endereços abaixo:


NEACA (SG)- Rua Rodrigues Fonseca, 201, Zé Garoto. (2606-5003/21 98464-2179)

NEACA (Itaboraí)- Rua Antônio Pinto, 277, Nova Cidade. (21 98900-4246)

 


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