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AFETIVIDADE E FORTALECIMENTO DE VÍNCULOS NA PRIMEIRA INFÂNCIA


Pesquisas desenvolvidas ao longo do século XX por estudiosos da infância, demonstram que a afetividade e o vínculo são absolutamente necessários para um desenvolvimento saudável e criativo, assim como a valorização do que a criança sabe fazer de melhor, brincar e criar. A relação que se estabelece entre o adulto cuidador e o bebê é de extrema importância, pois o adulto tem a capacidade de acolher as manifestações do bebê (choro e expressões corporais) e então passar a atender suas necessidades físicas e emocionais. A falta de atenção integral – que inclui acesso à saúde, nutrição adequada, estímulos, amor e proteção contra o estresse e a violência – pode impedir o desenvolvimento das estruturas cerebrais.

Avanços na neurociência provaram que quando as crianças passam seus primeiros anos – particularmente os primeiros 1.000 dias desde a concepção até os 2 anos de idade – em um ambiente estimulante e acolhedor, novas conexões neuronais se formam na velocidade ideal. Essas conexões neurais ajudam a determinar a capacidade cognitiva de uma criança, como elas aprendem e pensam, sua capacidade de lidar com o estresse.

“Na Primeira Infância, a criança humana precisa começar a usar as expressões faciais de sua mãe e seu pai como guias imediatos para o comportamento em seu ambiente particular. Isso é conhecido como “referência social”, com a criança utilizando a comunicação visual a uma distância para verificar o que fazer e o que não fazer, o que sentir e o que não sentir, usando as expressões faciais do pai ou da mãe como sua fonte de informação” (Gerhardt[1] apud Feinman 1992, pág. 58).


Especialmente na infância, afirma Gerhardt (2017), olhares e sorrisos ajudam efetivamente o cérebro a crescer. Assim, laços afetivos são o estímulo mais vital para o cérebro social. No entanto, olhares e interações negativas também são lembrados e armazenados. Qualquer coisa que ameace a regulação emocional e fisiológica da criança, é considerada como muito estressante, pois coloca em risco a sua sobrevivência.


“O que uma criança pequena precisa é de um adulto que seja emocionalmente disponível e sintonizado o suficiente para ajudá-la a regular seus estados” (Gerhardt, 2017).


Os laços afetivos, por vezes, sobrepõem-se aos laços sanguíneos, pois são construídos e fortalecidos no dia a dia, ou seja, é com a presença ativa na rotina, constância dos relacionamentos e interações afetivas que os pais/cuidadores estabelecem as conexões mais profundas com as crianças. Ser e estar presente é a melhor lembrança e herança que podemos deixar.

Dessa forma, o cuidado com crianças pequenas pode envolver, na rotina, hábitos como diálogo, escuta, acompanhamento e auxílio nas atividades escolares, participação nas reuniões e eventos em datas especiais, assistir um desenho juntos, brincar, conhecer seus amigos, dentre outros. A primeira infância é um período notoriamente conhecido como “janelas de oportunidades”, isto é, situa-se como um tempo de investimentos e desenvolvimentos importantes, especialmente na relação entre cuidador e criança. Tal construção de vínculos não é uma questão de quantidade de tempo empregado, mas sim da qualidade de tempo dedicado à estruturação dessas relações.

Quando falamos de vínculos afetivos, falamos ainda das diversas formas de demonstração de afeto, pois existem diferentes maneiras de comunicar os sentimentos. Cada sujeito tem sua maneira de demonstrar, há aqueles que têm maior facilidade ao toque físico, enchem de beijos, abraços e carinhos, enquanto outros têm maior dificuldade na demonstração do afeto de forma física, há pessoas que preferem demonstrar o afeto através do cuidado, do ato em servir, há que prefira demonstrar com palavras, presentes, passeios, então não há como ensinar uma receita, muitas vezes quem não recebeu tais demonstrações, não sabe dar ou tenha maior dificuldade e vai precisar reconstruir suas histórias e vivências individuais, aprender a ressignificar e para fazer diferente é aí que surge a importância do trabalhar o fortalecimento de vínculos. Vínculos estes, muitas vezes fragilizados, desgastados e até mesmo rompidos.

É preciso criar estratégias e estarmos atentos à forma como nos relacionamos diariamente com nossas crianças. Para as crianças, todo estímulo é muito importante! O toque afetuoso é capaz de despertar terminações nervosas que proporcionam o bem-estar e trazem sensação de segurança. Por isso, acarinhar, abraçar, fazer cafuné, pentear os cabelos, auxiliar nas tarefas de casa, estar presente, são práticas que contribuem para fortalecer vínculos. O cuidado é mágico!


Falar sobre vínculos afetivos e infância implica falar de brincadeiras, afinal as crianças aprendem brincando e brincar com uma criança é materializar o afeto. Através de jogos e brincadeiras, os adultos serão grandes auxiliares na importante tarefa de conduzir as crianças na edificação da autonomia, autocontrole, paciência, empatia, altruísmo, colaboração, trabalho em equipe, dentre muitas outras habilidades e qualidades desejáveis. No brincar há uma troca, onde se ensina e se aprende de forma prazerosa.

É necessário compreender que educar uma criança vai muito além da provisão às necessidades básicas de sobrevivência (alimentação, higiene, cuidados de saúde etc.). Os vínculos afetivos e de confiança, o brincar e as oportunidades e, principalmente, vivências positivas na infância são fundamentais para o processo de desenvolvimento pleno e saudável.

Ao se pensar no acompanhamento das famílias de forma integral e integrada há de se refletir como fortalecer os vínculos familiares existentes, em outras palavras, potencializar a capacidade protetiva daquele núcleo familiar, considerando suas especificidades. Daí a importância dos diferentes saberes dialogarem entre si, os profissionais envolvidos no processo de acompanhamento (Assistente Social, Psicóloga, Pedagoga e Educadora Social), através de reuniões de equipe realizam sistematicamente estudos de caso, momento onde cada setor compartilha suas observações e percepções a respeito do caso em questão, sendo possível construir estratégias de intervenção onde se trabalhe cada um no seu saber, mas, de forma complementar e articulada rumo a um objetivo. Estamos falando aqui de intersetorialidade, interdisciplinaridade e multidisciplinaridade no enfrentamento à violência, para cada momento faremos uso de uma estratégia.

Exemplificando, através de um trabalho desenvolvido junto ao setor educação, pode surgir uma questão que precise por exemplo ser confrontada pelo Serviço Social, junto ao responsável ou elaborada junto a psicologia durante os atendimentos a criança. Deste modo, é possível fazer uma espécie de círculo de proteção. O elemento central é a criança, mas, para auxiliar o processo de mitigar os possíveis agravos da violência, muitas vezes é necessário trabalhar junto aos adultos, desconstruindo, refletindo, problematizando e construindo ideias, para cuidar da criança precisamos pensar em cuidar da família. Para além de toda essa movimentação interna, ocorrerá ainda, o trabalho em rede, tão defendido e incentivado pelo Projeto Tecendo Redes na Primeira Infância, objetivando ações articuladas junto a rede de proteção com diversos serviços e atores do SGD, possibilitando com isso a ruptura da fragmentação frente a abordagem do enfrentamento das demandas das famílias que são atendidas simultaneamente em diversos serviços.

[1] GERHARDT, S. “Por que o amor é importante: como o afeto molda o cérebro do bebê”. Porto Alegre: Artmed, 2017.

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